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Confira abaixo as crônicas finalistas do Concurso Literário do FELIT:

 

São João del-Rei – cidade dos sinos 

Aline Aparecida dos Santos Silva 

“Por quem os sinos dobram”, my dear?”Perguntou-me Hemingway, no dia dois de julho de 1959, no adro da igreja de São Francisco de Assis, enquanto eu o guiava pela cidade de São João del-Rei. Ao que lhe respondi: 

- Ora, senhor Hemingway, por acaso fui eu quem escreveu um livro com esse nome? 

Ele me respondeu, então, com o português que aprendeu estudando literatura brasileira (disseme, inclusive, que aprendeu muito com Otto Lara Resende, em seu livro “O lado humano”): 

- No, dear, fui eu que escrevi esse livro, mas eu sinto que aqui eles, os sinos, tocam different and… eu… eu penso que é por causa destas serras, destas igrejas, por causa destas ladeiras de pedras e destas ruas estreitas e misteriosas 

- Sim, Mr. Hemingway, concordo com você. Aqui os sons dos sinos sobem a Serra de São José, que poderíamos conhecer, se você não voltasse amanhã para os States, visitam a Serra do Lenheiro, comunicam-se com as lendas desta, com suas pinturas rupestres e voltam, passam pelas ruas estreitas, escorregam nas pedras das nossas ladeiras e batem na gente, trazendo, de longe, um segredo latente, que nem nós entendemos… 

O escritor quedou pensativo, por alguns minutos, olhou bem para a igreja de Nossa Senhora das Mercês e disse admirado: 

- My God! Os sinos parecem falar! Você percebe, Anita? 

Olhei para ele, sorrindo, contente pela admiração daquele escritor que, até então, me parecia saber de matérias de sinos e respondi o que já ouvi os guias turísticos dizendo, de cor e salteado: 

- É. De fato, o senhor se deu conta de que, nesta cidade, os sinos falam. Eles nos avisam onde será realizada a solenidade; se haverá procissão; a hora da missa e, nos dobres fúnebres, fica-se sabendo se a pessoa falecida era homem ou mulher e até mesmo o horário do funeral… 

Assim fui informando aquele homem que eu via mostrar-se outro, em cada minuto, tentando desvendar o codinome Minas. Ah se ele soubesse das diversas Minas que só nós vivemos; matéria sublime, concreta e abstrata, mas que trata mais do sentir do que do palpar… E o curioso Ernest sempre a indagar, sempre a criar hipóteses, me falava em tom exaltado: 

- Anita, quero escrever um último livro. Tenho que escrever um último livro sobre estes sinos. Por quem eles falam? Por que eles falam? O que eles falam? 

- Como não, senhor Hemingway, já é um homem consagrado, pode escrever sobre qualquer matéria que quiser, mas, antes disso, lhe aconselho algumas aulas com os sineiros, o que vai lhe render muitas páginas… 

Quando disse isso, o escritor me olhou, tristemente, passou a mão em seus cabelos brancos e retrucou: 

- Não sei se poderei voltar a esta cidade. A vida é breve… Amanhã mesmo já estarei no meu país e, pelo que vejo, nosso passeio termina aqui, no ponto que me levaria a recomeçá-lo… 

Procurei animá-lo, mesmo sabendo dos graves problemas de saúde que já o debilitavam: 

- Não, não diga isso, Mr. Hemingway! Ainda vamos nos encontrar por estas esquinas, uai! 

Não sei se ele sequer fingiu acreditar em mim, ou se me entendeu. O que sei é que nunca me esqueci dos olhos curiosos de Ernest Hemingway que passeavam por São João del-Rei. Hoje, no dia dois de julho de 1961, exatamente dois anos depois de nosso encontro, ouvi a notícia do suicídio do escritor estadunidense. Pelo (pré)visto, ele não desvendou Por quem os sinos da nossa cidade falam, Por que eles falam, O que eles falam… E estes mesmos sinos me acodem ao ouvido, neste momento, em forma de interrogação e tristeza: “e você, já nos desvendou?” 

Recomeço meu passeio, quando pensei tê-lo terminado, sábia lição de Ernest. Enquanto isso, os sinos dobram, dobram, dobram… 

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Do peito dos desafinados para o ouvido dos privilegiados 

João Pimentel Perfeito 

Ela viu uma figura conhecida ali, na cidade que não era dela. De onde se conheciam mesmo? Ah, sim: do elevador de um residencial degradado onde moravam na capital. De segunda a sábado às 7 da manhã a mulher embarca no décimo terceiro andar. De segunda a sábado às 7:01 da manhã o homem embarca no décimo andar. 

Diariamente trocam um bom dia sério, sonolento, e nada mais. O homem sempre fixa o olhar na placa que diz “6 pessoas ou 490 kg”. A mulher sempre passa batom olhando no espelho. O elevador chega no térreo, os dois cruzam o hall de entrada e alcançam a calçada. Em silêncio o homem vai pra esquerda e a mulher pra direita. 

O homem, que também estava na cidade que não era a dele, decidiu sentar-se na calçada, aparentando simplesmente esperar o tempo passar, ou o sino bater. Do meio de um grupo de turistas que tiravam fotos da igreja, a mulher surgiu, e também se sentou na calçada, a 2 metros de distância do homem, sem que este a percebesse. 

Ele estava extremamente distraído com um isqueiro que tirara do bolso. Como quem não tem planos nem para o próximo segundo, nem para o próximo século, acendia e apagava o isqueiro repetidas vezes, olhando firmemente para a chama. 

- Oi – ela disse repentinamente, olhando ora para ele, ora para o isqueiro. 

- Oi – respondeu um pouco assustado, abandonando aquele ritual. 

Reconheceu-a no mesmo instante. Ficaram uns segundos em silêncio. Ela falou primeiro: 

- Você é piromaníaco? 

- O quê? 

- Piromaníaco – disse com uma expressão séria – mania de fogo, tendência para incendiário, entende? 

- Não… não sou – disse meio confuso. 

Depois dessa decidiu guardar o isqueiro. Nunca sentiu simpatia pela figura histórica de Nero. Esboçou um sorriso espontâneo e perguntou: 

- Fugindo da cidade grande? 

- Sim. Você também? 

Sinalizou que sim com a cabeça e disse logo em seguida: 

- Fugir é saudável. Afinal, até animais encurralados se tornam agressivos. Um homem isolado numa ilha fica louco. Louco de tacar pedra. Pessoas presas juntas num ambiente por semanas ou meses desenvolvem uma patologia homicida. É fato. Li isso em algum lugar… 

Novo silêncio. E subitamente chegou o momento em que o homem parecia esperar: O sino da igreja bateu 10 vezes vagarosamente. Ao final do décimo toque do badalo, a mulher quebrou o silêncio. 

- Cidade onde os sinos falam, certo? Prefiro dizer que cantam, mas tenho a impressão de que os sinos daqui são desafinados. Isso é possível? 

- Talvez sim… Agora que você mencionou, até acho que sim, que são desafinados. Mas um desafinado agradável, concorda? – indagou o homem. 

- Sim, de acordo. Sabe… É que no peito dos desafinados também bate um coração, já dizia Tom Jobim. 

O homem soltou uma risada sonora e levantou-se. 

- Nos vemos no décimo andar – disse. 

E depois virou a esquina. 

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Sinos de minha infância 

Kele Cristina de Albuquerque Melo 

Ainda ouço as batidas do sino em uma igrejinha, era o cortejo fúnebre de meu avô Isé. Jamais se apagou de minha memória aquelas batidas tristes “dlam… dlam… dlam…”, o cortejo passava por uma estradinha estreita com poucas pessoas, o choro e a tristeza misturavam com as batidas dos sinos. Tinha apenas 7 anos e essa imagem jamais saiu de minha memória, uma vida se encerrava ali. 

Cresci, casei e mudei para esta cidade de São João Del Rei, a famosa Cidade dos Sinos. No início era muito difícil, pois os repiques dos sinos me faziam relembrar daquele triste dia. Tive que aprender a conviver com aquelas badaladas, pois os sinos fariam parte de minha nova vida nesta cidade. Assim resolvi me dedicar a estudos sobre os sinos. Durante dias visitei várias igrejas, Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Carmo, São Francisco de Assis…. Em todas descobria algo novo e a cada momento me sentia mais envolvida com as batidas dos sinos. Batidas marcantes, às vezes alegres outras vezes tristes. Nessas visitas os sineiros me explicavam cada significado daqueles diversos toques, a sua importância para a história de São João Del Rei. Foi aí, então, que percebi que minha história fazia parte dos sinos e estes de minha vida. Hoje me sinto feliz em ser uma moradora da Cidade dos Sinos. A lembrança de meu avô continua e as batidas dos sinos permanecem em minha vida. 

Percebo que o passado ficou lá naquele arraialzinho esquecido pelo tempo, mas jamais apagado de minha memória. As badaladas dos sinos continuam. E aqui em São João Del Rei, o passado se faz presente, através de cada repique e dobre, marcando a história de cada morador desta cidade. Talvez histórias alegres e outras como a minha. E a vida continua… 

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Fim de tarde 

Aliene Cássia Carvalho Gonçalves 

Fim de tarde. Ao fundo, o badalar dos velhos sinos. Os mesmos seis toques de todas as tardes, que marcam a sua presença. Lá vai ele, cabisbaixo, mãos no bolso do paletó surrado. Se não fosse assim, tão triste e encabulado, talvez notasse aqueles olhos sedentos de sua forma tediosa, que há tanto tempo lhe acompanham. 

A quem possa parecer, é um encontro marcado. Ele em sua doce solidão, com seu olhar vago e seu sorriso impreciso; e os olhos, aqueles olhos, brilhantes de querência, de tentação, sempre à mesma hora, no mesmo local. 

Um andarilho mais atento se interessaria por saber o que há nesse par, tão simplório e envolvente. Em que há tanta destreza nessa fuga inconsciente e tão mais insistência nesse fazer-se notar? Eles se diferem em algo, mas não há um alguém mais interessado, nem tão pouco esforçado, em revelar tão singelas posições. Só há ele e seu caminhar matreiro, que transborda melancolia, uma dor lancinante. Em contraponto, tem aquele par de olhos, que sobrevivem ao pesar do desejo não revelado, não vivido. 

Dia após dia, os dois se desencontram. Toque após toque dos sinos, os passos naquela viela, com a graça da antiguidade, são dados e trazem vida à casa de detalhes azuis, janelas brancas e aos olhos, aqueles olhos. 

Eles não se cansam de ver, apenas ele passar e ir, não se sabe para onde, nem tão pouco interessa saber. A única coisa importante daquele momento, seis badaladas, é que ele vem, deixa o cheiro da sua solidão ao atravessar a rua. Há quanto tempo se observa essa tranqüila dança de desencontro? Um mês, seis meses, dois anos?… 

O tempo é impreciso, se arrasta com toda a dificuldade das seis badaladas que demoram tanto a serem ouvidas. Cada passagem inicia o martírio diário daqueles olhos profundos, sua emoção é a espera e nada mais. Há muito perdeu a esperança de que ele lhe notasse, buscou satisfazer-se com o que tinha: sua visão. E tentava dela, a cada novo encontro, tirar maior proveito. Os olhos eram como máquina fotográfica, podiam guardar e dizer cada característica dele. A manga puída do paletó, os sapatos mal engraxados, as camisas de cores sóbrias, o corte no rosto da barba feita às pressas. Tudo estava ali e a cada dia eram essas imagens que lhe invadiam a mente. 

Naquela nova tarde, as mesmas badaladas, a mesma rua, a mesma janela, os mesmos olhos. Só ele não era o mesmo. Vinha com as mãos leves, soltas ao lado do corpo, a cabeça altiva. Observava, algo acontecera, não era mais alguém tomado pela desesperança. Era homem, como todos os outros. 

As novidades parariam por aí? Subia a rua com leveza, parecendo querer compensar cada passo pesado de antes. Parecia sorrir, com a verdade de quem sabe o que quer. E a cada passo que dava e mais próximo da janela branca ficava, aqueles olhos se emocionavam, de novo. Não é necessário dizer, a que se parecia essa emoção, o acontecimento seguinte fala por si. 

Ele virou-se. Olhou e encontrou aqueles velhos companheiros, brilhando de contentamento. Tudo parou, nada mais tinha significado. Apenas os dois, ele e seu admirador. Foi o instante em que os olhos se calaram e ele quis falar. Papéis invertidos. Acabou. O relógio voltou a girar, os carros a passar. Mas algo havia mudado. Outra tarde, seis sons do sino, passos pesados, ombros caídos. Olhos na janela, à espreita. Ele passa. E os olhos sorriem. 

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Bate sino, fala sino 

Ana Carolina de Almeida Marques 

Escuridão, mas ainda assim consigo ver o teto manchado do quarto. Consigo ouvir o vento passando pelas frestas da janela. Consigo perceber umas vozes distantes. Por que durante a noite cada som mínino se torna um estrondo? Mudo de posição. Vejo a parede branca e limpa. Agora o silêncio e o meu corpo se estremece. Os sinos tocam de novo. São três horas. Por que eu não durmo? 

Minhas noites de insônia são aterrorizantes. Uma das piores sensações é não conseguir dormir enquanto todos os outros dormem. Durante o dia, quando me lembrava que tentaria dormir novamente à noite, meu estômago se contorcia. Emprestei livros, aluguei filmes, deixei trabalhos para serem terminados, mas para o caso de querer realmente dormir, fiz listas de pensamentos que me fossem felizes e que poderiam me acalmar. Quem sabe um banho quente? Nada parecia funcionar. Talvez um remédio. Achei melhor não. Resolvi procurar o porquê da minha insônia. 

Comecei então com o meu chamado processo investigatório. Procuraria as causas. Talvez fosse o meu quarto, ou a minha cama, ou o meu travesseiro. Talvez escuridão demais. Talvez, o problema estivesse mesmo comigo. Não sabia. 

E assim, por quase um mês não dormia direito e as minhas investigações não estavam tendo sucesso, apesar dos inúmeros indícios e das digitais que me cercavam, a resposta me fugia. Então, num belo dia ela me encontrou numa frase de restaurante: São João del-Rei a cidade dos sinos que falam. Minha ficha caiu, acho que até uma lampadazinha sobre a minha cabeça foi vista aquele dia. Isso! A culpa da minha insônia é dos sinos que falam. Precisava descobrir agora como o falar dos sinos me atrapalhava dormir. Mas, antes disso… Falam? Como é que os sinos podem falar? Consequentemente, com uma resposta surgiram outras perguntas e um novo processo investigatório focado, agora, nos sinos. 

Se eles falam como é que nunca ouvi? Falam nada. Deve ser coisa para turista. Era o que eu pensava até uma segunda-feira atípica. Estava andando pelo centro da cidade. Admirada, olhava dentro da minha carteira. Nem um tostão. Perdi o pouco que tinha. E foi ali. Paralise o tempo. Câmera lenta. Sino por sino eles foram sendo tocados. São Francisco, do Carmo, Pilar, do Rosário e das Mercês. Não sei como todos estavam sendo tocados juntos nem como consegui ouvir a todos. E mais uma vez estava admirada, mas agora já não olhava nada, só ouvia. Entendi que eles falam sim! Eu é que nunca havia percebido, nunca havia prestado atenção, passava por aquelas ruas ouvindo a trilha sonora dos meus problemas e trabalhos. E nunca havia compreendido cada soar como uma palavra. Na maioria das vezes, os soares se complementam e formam frases, canções. Os sinos conversam entre si. Meus olhos até brilhavam. O que fazer agora? Apenas dormir. Conversas nunca me atrapalharam dormir. Até gostava de dormir com elas. 

Cheguei em casa satisfeita. Deitei-me, fechei os olhos e… E os sinos se tornavam os mocinhos malvados da minha história! Não aguentava mais. Não pude dormir mais uma vez. Eles me irritavam. Estava no ápice do meu estresse emocional, precisava dormir. Dormir! Meus olhos não paravam abertos, mas eu não dormia. Não conseguia. Cansada e com essa fúria toda gritei um O que é agora? Não tenho mais perguntas! Parem! Foi ai que eles falaram de novo. E ali sim, com a câmera lenta, mas muito lenta, foi que a resposta verdadeira me foi dada. Os sinos falam, conversam entre eles, cantam e se comunicam também conosco. Eles falam com as pessoas! Falam comigo! (Por favor, não me chame de louca, estou apenas concluindo o meu processo investigatório.) Agora eu sabia de tudo! O mais incrível dessa história toda é que mesmo quando não se tem mais perguntas ainda há respostas a serem dadas. 

Hoje, aprendi a dar boa noite aos sinos e nunca mais consegui não dormir. 

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